quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Malaquias – Estudo 1 (Ml 1.1-5)

malaquais blog por Rev. Jocarli A. G. Junior

Dizem que o oposto do amor não é o ódio, mas, a apatia. Certamente, você não odeia a Deus, mas em algum momento de sua vida, você vai ficar insensível diante do grande amor do Eterno. Você vai à igreja, entrega o dízimo, frequenta a Escola Dominical, contribui com a obra missionária e participa do culto nos lares. Porém, como um casamento, você tem um relacionamento funcional com Deus, mas se não tiver amor, tudo isso será em vão.

Era exatamente esse o problema do povo na época do profeta Malaquias. O Senhor disse, “Eu vos tenho amado” (o verbo “amado” em hebraico traz a ideia de uma ação no passado, mas que continua no presente).[1] Ou seja, Deus não somente amou um dia, mas continua amando o seu povo. Todavia, a resposta do povo foi algo aterrador: “Em que nos tem amado?” Eles estavam tão insensíveis à declaração magnânima do amor de Deus, que impetuosamente exigiram que Deus provasse o que tão generosamente afirmou. Havia culto, havia adoração, mas não havia amor! A resposta de Deus nos mostra como superar a frieza espiritual diante do Seu grande amor:

1. O Perigo da indiferença ao grande amor de Deus.

2 Eu vos tenho amado, diz o Senhor; mas vós dizeis: Em que nos tens amado? Não foi Esaú irmão de Jacó? — disse o Senhor; todavia, amei a Jacó,

Nosso texto e o contexto sugerem três razões de como podemos crescer indiferentes ao amor de Deus:

A. Nós crescemos indiferentes ao amor de Deus, porque nos esquecemos da urgência de Sua mensagem.

1 Sentença pronunciada pelo Senhor contra Israel, por intermédio de Malaquias .

A palavra “sentença” aponta para uma mensagem que pesa sobre seu portador. Nos livros proféticos (maśśā, em hebraico) introduz mensagens de natureza ameaçadora 27 vezes (Is 13.1; 14.28; 15.1; Na 1.1; Hc 1.1; Zc 9.1; 12.1).[2] Isso significa que a mensagem da parte de Deus não é para ser tratada com leviandade. As palavras de Malaquias não são leves ou insignificantes, mas pesada e substancial. O profeta reconhece que o que ele está prestes a pregar não é algo agradável aos ouvidos, mas algo que vai perturbar as almas dos seus ouvintes. E é assim que deve ser quando chegamos à Palavra de Deus (Jr 23.29). Um homem não brinca quando tem um peso em suas costas. O homem que carrega o peso da palavra do Senhor significa que ele está pleiteando com a alma à luz do juízo vindouro. A mensagem de Malaquias não era doce, pelo contrário, era uma palavra dura e difícil de ser digerida.

Uma mensagem pesada dirigida ao povo de Israel. É aí que reside o grande perigo! Eles nasceram na Comunidade da Aliança. Israel era a Igreja do Antigo Testamento. Toda a sua vida desde a infância era centrada na sua religião. No entanto, eles estavam apáticos e insensíveis diante da mensagem de Deus. Às vezes nos comportamos da mesma forma. Temos mais ânimo para conversar e compartilhar de coisas que não edificam do que força e coragem para meditar na Palavra de Deus.

Rowland Hill foi um pregador inglês do Século XVIII, pouco antes de sua morte, estava conversando com um velho amigo que lhe disse que ainda podia lembrar o texto e parte de um sermão que ele tinha ouvido Hill pregar 65 anos antes. Hill perguntou o que ele se lembrava. Ele declarou que Hill havia dito que algumas pessoas, quando escutam um sermão não gostam da entrega do pregador. Então ele disse: “Imagine que você tenha sido convidado para ouvir a leitura de um testamento de um parente seu, e você espera que ele tenha deixado alguma coisa para você. Você dificilmente pensaria em criticar a forma como o advogado iria ler o testamento. Em vez disso, você teria toda a atenção para ouvir se alguma coisa foi deixada para você e se assim for, quanto. Esta deve ser a maneira de ouvir a pregação do evangelho”.[3]

Gostaria de incentivá-lo a ler o livro de Malaquias pelo menos uma vez por semana, durante os próximos dois meses. Se você fizer isso, você vai descobrir que, embora existam algumas verdades difíceis de ponderar, Malaquias é realmente uma carta de amor de Deus, cheio de esperança e encorajamento.

B. Nós crescemos indiferentes ao amor de Deus, quando nos concentramos em nossas circunstâncias em vez do propósito de Deus.

2 Eu vos tenho amado, diz o Senhor; mas vós dizeis: Em que nos tens amado? Não foi Esaú irmão de Jacó? — disse o Senhor; todavia, amei a Jacó,

Esta era a perspectiva dos leitores no tempo de Malaquias. Eles mediam o amor de Deus por meio de coisas materiais e vida financeira. Quando olhavam para suas circunstâncias, as coisas não estavam indo como eles esperavam, por isso eles se tornaram insensíveis e desanimados.

Em contraste com as suas circunstâncias difíceis. Os profetas haviam declarado uma era de ouro para Israel quando a terra produziria frutos abundantes, as pessoas iriam habitar em segurança sob o reinado do Messias (Is 49.19-23; 54.1-3; Jr 23.5-6; Ez 25-30; Zc 8.1-8, 12-15, 20-23). Mas nada disso aconteceu. Em seguida, vem o profeta Malaquias e diz: Deus te ama e tem um plano maravilhoso para suas vidas! E eles dizem: Como é que Deus nos ama?

Eles tinham voltado e estavam em Jerusalém por cerca de 125 anos. O templo estava restaurado, e Neemias levou o povo a reconstruir os muros da cidade. Mas, eles não tinham um exército para se proteger dos vizinhos hostis. Eles ainda estavam sob o domínio do rei persa. Suas fazendas não estavam produzindo muito bem por causa da seca (3.10-11). Muitos deles, provavelmente, estavam pensando, se esta é a terra prometida, eu odiaria ver a terra não prometida!

Como Israel, nós crescemos indiferentes ao grande amor Deus por nós quando nos concentramos em nossas circunstâncias difíceis, em vez dos propósitos de Deus. Se nos concentrarmos em nossos problemas, eles irão nos consumir. Se pensarmos a respeito dos propósitos de Deus e o Seu reino sobre toda a terra, teremos a perspectiva de que precisamos. É por isso que Paulo, apesar de suas provações, pode dizer com alegria de que ele vivia pela fé no Filho de Deus que o amou e se entregou por Ele (Gl 2.20).

C. Nós crescemos indiferentes ao amor de Deus quando nos acostumamos com o sagrado.

Essas pessoas estavam adorando no templo. Eles ofereciam sacrifícios. Eles realizavam todos os rituais prescritos por Moisés. Mas eles transformaram a religião em algo meramente rotineiro ao invés de uma relação vital e pessoal com o Deus amoroso. Eles seguiram o programa de Deus, mas eles tinham perdido a intimidade.

Eles permitiram que as dificuldades roubassem o sentido da presença amorosa de Deus. Tal empobrecimento resultou na decadência moral denunciada no capítulo dois e a indiferença espiritual criticado no capítulo três.[4] Seguindo a pergunta impertinente de Judá, o Senhor afirma que seu amor estava presente na história (v. 3-5).

2. A solução para a indiferença para com Deus é considerar a eleição soberana do Seu povo.

2 Eu vos tenho amado, diz o Senhor; mas vós dizeis: Em que nos tens amado? Não foi Esaú irmão de Jacó? — disse o Senhor; todavia, amei a Jacó, 3 porém aborreci a Esaú ; e fiz dos seus montes uma assolação e dei a sua herança aos chacais do deserto. 4 Se Edom diz: Fomos destruídos, porém tornaremos a edificar as ruínas, então, diz o Senhor dos Exércitos: Eles edificarão, mas eu destruirei; e Edom será chamado Terra-De-Perversidade e Povo-Contra-Quem-O-Senhor-Está-Irado-Para-Sempre. 5 Os vossos olhos o verão, e vós direis: Grande é o Senhor também fora dos limites de Israel.

Surpreendentemente, Deus respondeu a pergunta insolente do povo de Israel ilustrando ainda mais o Seu amor paciente. Deus responde as pessoas, lembrando-os que Ele escolheu a Jacó e rejeitou a Esaú.

A. A eleição soberana de Deus O exalta como o soberano justo do universo.

“Não foi Esaú irmão de Jacó? — disse o SENHOR; todavia, amei a Jacó, porém aborreci a Esaú...” – Em seu plano soberano, Deus escolheu Abraão para abençoar e formar uma grande nação. Então, Deus escolheu Isaque, o filho de Abraão, em detrimento do seu outro filho, Ismael. Em seguida, Deus escolheu o filho Jacó, filho de Isaque ao invés do mais velho, Esaú. Além disso, Deus em Sua soberania e graça escolheu os descendentes de Jacó como o Seu povo. Ele os amou de maneira especial em detrimento de todas as nações (Dt 4.37; 7.6-8).

Esta comparação entre Jacó e Esaú, Judá e Edom é para lembrar ao povo de Israel do amor imerecido e, portanto, a eleição de Deus. Eles tiveram a audácia de exigir que Deus mostrasse como Ele os amou, desconsiderando completamente o seu estado original como povo eleito. Por nascimento Esaú era tanto uma criança privilegiada como Jacó, ambos eram filhos gêmeos dos mesmos pais, Isaque e Rebeca. No entanto, Deus tinha amado Jacó com um amor misericordioso.[5]

Deste modo, quando o povo questionou o amor de Deus, “Em que nos tem amado?”, Deus pacientemente respondeu: “Vocês poderiam estar entre aqueles que eu rejeitei, mas estão entre os que escolhi amar soberanamente”. Não existe prova de amor maior do que esse!

Aqueles que lutam contra a doutrina da eleição estão em atrito contra o direito de Deus de ser Deus. Ele é o oleiro; nós somos o barro. Como assinala Paulo em Romanos, Deus não baseou sua escolha em qualquer coisa que Ele previa. Em vez disso, Deus fez isso para que seu propósito de escolha prevalecesse (Rm 9.11). Deus não só escolheu Israel como uma nação para servi-Lo, Ele também escolheu indivíduos para salvar como uma demonstração de sua graça soberana e amor (Ef 1.4-6).

B. A soberana eleição de Deus humilha-nos como pecadores indignos.

Esaú era um homem melhor do que o irmão. Jacó era um impostor que enganou o seu pai e tomou a bênção da primogenitura. Esaú ficou irritado com isso e desejou matar o irmão. Porém, mais tarde ele perdoou Jacó. Mas ambos os homens eram pecadores. Deus escolheu a Jacó e rejeitou a Esaú, e como Paulo deixa claro, Deus fez isso antes dos gêmeos nascerem ou tivessem feito alguma coisa de bom ou ruim. A escolha de Deus não foi baseada em algo neles, mas apenas na Sua escolha soberana.

Em Gênesis, Rebeca perguntou a Deus por que as duas crianças em seu ventre brigavam tanto entre si: “Respondeu-lhe o SENHOR: Duas nações há no teu ventre, dois povos, nascidos de ti, se dividirão: um povo será mais forte que o outro, e o mais velho servirá ao mais moço” (Gn 25.23).

Você pode pensar que isso não é justo! Paulo sabia que você poderia pensar assim, e por isso, ele lida com essa objeção em Romanos 9.14-18, onde Ele argumenta que Deus é livre para mostrar misericórdia e compadecer-se de quem Ele aprouver ter compaixão. Deus foi perfeitamente justo ao condenar todos os anjos caídos que pecaram sem oferecer-lhes uma forma de salvação. Deus seria perfeitamente justo em condenar toda a raça humana, porque todos pecaram. Ele não deve misericórdia a ninguém.

C. A Eleição soberana de Deus deve levar-nos a proclamar o Seu nome.

5 Os vossos olhos o verão, e vós direis: Grande é o Senhor também fora dos limites de Israel.

“... Eles edificarão, mas eu destruirei; e Edom será chamado Terra-De-Perversidade e Povo-Contra-Quem-O-SENHOR-Está-Irado-Para-Sempre” (v. 4) – Israel pode não estar muito bem financeiramente desde o retorno da Babilônia. Mas eles vivam na “Terra Santa”, e não poderiam se comparar com Edom. Eles serão chamados “Terra-De-Perversidade e Povo-Contra-Quem-O-SENHOR-Está-Irado-Para-Sempre” (1.4).

“porém aborreci a Esaú ; e fiz dos seus montes uma assolação e dei a sua herança aos chacais do deserto” (v. 3) – O que tinha feito Edom para merecer isso?

Em Números, Moisés pediu ao rei de Edom para o povo de Israel passar por seu território. Todavia, o pedido foi negado. Os edomitas tomaram a seguinte decisão: “Não passarás por mim, para que não saia eu de espada ao teu encontro” (Nm 20.18). Além do mais, eles saíram armados para impedirem a passagem.

Os edomitas também se associaram com a Babilônia para matar o povo de Deus. Eles saquearam Jerusalém com os caldeus (Ob 11, 13). Olharam com prazer a destruição de Israel (Ob 12; Sl 137.7). Pararam nas encruzilhadas para matar os que tentavam fugir (Ob 14) e entregaram à Babilônia alguns que tentavam escapar da morte (Ob 14). Os descendentes de Esaú mantiveram o ódio pelos descendentes de Jacó.

Então Deus agora diz: ... Eles edificarão, mas eu destruirei” (v. 4) – Setenta anos depois que Jerusalém caiu nas mãos da Babilônia com a ajuda dos edomitas, os nabateus, invasores do deserto, chamados de árabes no livro apócrifo de 2Macabeus, destruíram o território edomita, obrigando sua população a refugiar-se no Neguebe, ao sul de Judá.[6] Embora Deus tivesse escolhido a Jacó e não Esaú (Edom), ambas as nações eram obrigadas a andar em justiça diante de Deus. No entanto, Edom era “imoral” e “sem Deus” (cf. Gn 25.32; 36.1-8; Hb 12.16).[7]

O grande amor de Deus por Israel pode ser visto na restauração de Jerusalém. Eles rejeitaram a Deus, não deram ouvidos aos profetas e foram destruídos pela Babilônia. Mas Deus restaurou Israel e não restaurou Edom. Enquanto a nação de Israel, que tinha sido destruída, seria edificada, Deus estava destruindo definitivamente a nação daqueles contra quem ele estaria irado para sempre.[8] A terra de Edom será sempre uma terra de perversidade e um lugar debaixo da ira de Deus.

Conforme Calvino, as pessoas sem Deus podem até ter uma vida boa aqui neste mundo. Muitos dos que a ele pertencem podem até ser ricos, bonitos, populares, ter prosperidade ou poder; porém, o que os aguarda não é a felicidade eterna, e sim a ira de Deus para todo o sempre.

Portanto, jamais devemos medir o amor de Deus pelas circunstâncias difíceis que enfrentamos na vida. É verdade, às vezes não entendemos o querer e o realizar de Deus, mas basta-nos saber que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam o Senhor (Rm 8.28). Assim, o objetivo das provações é refinar nossa fé, e a perspectiva que precisamos durante os momentos de dor e sofrimento é entender que as provações são temporárias, necessárias e o melhor de tudo, estão sob controle de Deus (1Pe 1.6).

Conclusão:

Há momentos na vida de cada cristão, que, embora esteja andando pela fé, Deus parece distante. Você ora, mas parece que Deus não responde. Você lê a Bíblia, mas aparentemente nada acontece. Você procura Deus, mas parece que Ele não está interessado em sua vida. Quando este dia chegar, lembre-se da fidelidade de Deus. Ter a perspectiva correta sobre a fidelidade de Deus determina o quanto nós confiamos nEle. Mesmo no momento mais difícil de sua vida, Jó ainda confiava em Deus, até a morte (Jó 23.10). Às vezes, nós nunca entenderemos deste lado do céu, outras vezes levaremos a vida inteira para entender.

Não fale como o povo de Israel, “Em que nos tem amado?” Em vez disso, confesse a grandeza do amor de Deus, assim como o seu próprio amor para com Ele, e tome a decisão de ser um espelho da sua graça, em vez de um espelho dos tempos em que você vive.[9]

O famoso pregador Charles Haddon Spurgeon, estava andando pelo interior da Inglaterra com um amigo. Ele notou um celeiro com um moinho com um catavento. No topo da palheta estavam as palavras: “Deus é amor”. Spurgeon comentou que aquele era um lugar impróprio para aquela mensagem, porque as palhetas mudam de acordo com o tempo, mas o amor de Deus é constante, ele não muda. Mas amigo de Spurgeon discordou. “Você entendeu mal o significado”, disse ele. “Esse cata-vento diz à verdade que não importa a força do vento, Deus é amor”. Você já conhece esse amor?


[1] Kaiser, W. C., & Ogilvie, L. J. (1992). Vol. 23: Micah, Nahum, Habakkuk, Zephaniah, Haggai, Zechariah, Malachi. The Preacher’s Commentary Series (460). Nashville, TN: Thomas Nelson Inc.

[2] Walvoord, J. F., Zuck, R. B., & Dallas Theological Seminary. (1985). The Bible Knowledge Commentary: An Exposition of the Scriptures (Ml 1.1). Wheaton, IL: Victor Books.

[3] Charles Spurgeon, Lectures to My Students [Zondervan], pp. 391-392)

[4] Clendenen, E. R. (1998). The Minor Prophets. In D. S. Dockery (Ed.), Holman concise Bible commentary (D. S. Dockery, Ed.) (392). Nashville, TN: Broadman & Holman Publishers.

[5] Boice, J. M. (2002). The Minor Prophets: An expositional commentary (577). Grand Rapids, MI: Baker Books.

[6] BALDWIN, Joyce G. Ageu, Zacarias e Malaquias. São Paulo: Editora Vida Nova, p. 186.

[7] Kaiser, W. C., & Ogilvie, L. J. (1992). Vol. 23: Micah, Nahum, Habakkuk, Zephaniah, Haggai, Zechariah, Malachi. The Preacher’s Commentary Series (462). Nashville, TN: Thomas Nelson Inc.

[8] NICODEMUS, Augustus. O Culto Segundo Deus. A mensagem de Malaquias para a igreja de hoje. São Paulo: Vida Nova, 2012, p. 26.

[9] Boice, J. M. (2002). The Minor Prophets: An expositional commentary (577). Grand Rapids, MI: Baker Books.

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